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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Territórios em processo de especulação imaginária

Este relato foi originalmente publicado em 5 de setembro de 2013 como relatório de encerramento da minha vivência na Rede Fora do Eixo.

Foram três anos intensos.

E por isso também decidi contar a minha história. Essa é pros amigos que me acompanharam na caminhada e pra aqueles que tão junto sempre. 

Eu conheci o Fora do Eixo em setembro de 2010, durante a SEDA. Nessa época, eu fazia parte da Empresa Júnior de Jornalismo da UNESP e tínhamos feito uma parceria com o Enxame Coletivo (hoje Casa Fora do Eixo) para integrar a equipe de cobertura colaborativa do Festival. Uma lembrança clara que levo desse dia é a de ter ficado um grande ponto de interrogação sobre o que significava tudo aquilo que aqueles fora-do-eixo falavam.

A lógica era tão simples que não dava pra acreditar que funcionava, por isso eu insistia tanto em questionar e tentar entender. Depois desse episódio da SEDA decidi investigar um pouco mais do que era esse tal de Fora do Eixo, cobertura colaborativa (tag que, sem saber, não muito tempo depois eu levaria comigo pra debates, oficinas, mais festivais, outras cidades e até editais), caixa coletivo, sede moradia... (?) eu, aluna hoje do último ano de jornalismo e na época do primeiro, fui lá desbravar com uma reportagem aquele coletivo. Eu fiz uma curta pergunta (algo como o que é o Fora do Eixo?) e o Gabriel Ruiz falou por 50 minutos. Penei até entender o processo, revirei aquele áudio da entrevista, funcionamento da rede, articulação, o morar no lugar que trabalhavam, a coletividade, os tecs, cards...

Eu - apesar de ter passado muito tempo acompanhando o trabalho do Fora do Eixo em Bauru - nunca morei num coletivo da Rede. Sou colaboradora, vivente, parceira, entusiasta e curiosa do Fora do Eixo desde que ouvi falar dele e nunca vou esquecer o que senti e pensei quando pisei na sede pela primeira vez. Eu queria muito poder fazer parte daquilo de alguma forma, mesmo não entendendo o que de fato era, eu queria viver aquilo.



Pra quem acompanhou minha entrada sabe o quanto eu era despreparada – reconheço –, meu progresso e algumas das conquistas pessoais de que me orgulho tiveram muito a ver com a minha trajetória no Fora do Eixo, não tem como negar. O que eu levo de aprendizados... o Fora do Eixo foi muito mais do que uma faculdade pra mim – ele me fez crescer como pessoa. E eu pude aplicar todas as tecnologias que aprendi com vocês em outros projetos que desenvolvi paralelamente (principalmente no e-Colab que tem no currículo muita coisa bacana) e sei que ainda tem muito disso a reverberar nos meus futuros projetos e na minha vida.

Ganhei velocidade, ganhei espaço, ganhei asas.

Eu poderia citar vários episódios que marcaram minhas experiências no Fora do Eixo e acho que esse texto não teria fim. O que mais me motivou em todas as coberturas colaborativas que fiz parte é que tínhamos que sair do conforto da casa, do telefone, do email pra ir atrás do material pra escrever. Acho o mais genuíno jornalismo. Também não me esqueci o que me fez escolher esse curso... textos e textos de jornalistas, escritores que narravam com tanta paixão histórias que tinham visto, vivido, coisas que eu também queria viver e traduzir pros que não tivessem oportunidade de estar lá. E um sentimento muito vivo sempre presente…


Entrevista Vivendo do Ócio + Woodser ao vivo pela Pós-TV
Eu poderia optar por enumerar as passagens mais concretas que tive nesses três últimos anos, mas não vou.

Vi brilho em olhares de gente que não era vista há muito apesar do movimento da praça no centro da cidade, senti plateias estremecerem, a energia de muitas pessoas indo pra rua e chamando mais gente pra vir junto, embarquei em histórias que nem eram minhas mas que gritavam para serem retratadas.

Passei a ver coisas que eu nunca tinha parado para enxergar. Porque a correria, a pressão de se manter no número certo de caracteres, de se manter objetivo e dentro de tantas regras tinha me feito perder a sensibilidade do olhar. São coisas muito singelas, quase bobas, mas que mudam o modo de ver o mundo.

E apesar da minha área sempre ter sido o texto, também pude aprender muito sobre o olhar fotográfico em cima disso.

Nessas histórias, eu não fui só uma observadora, eu também me deixei vivenciar, me deixei abanadonar o bloquinho várias vezes pra confiar nas sensações e nas memórias. E se hoje eu abordo estranhos na rua é também porque eu sei que temos que procurar as histórias fora de nós, sem medo, temos que dar voz a quem não tem.



Lançamento da mixtape "Até surdo ouviu", do Coruja
Eu encontrei o que tinha perdido na faculdade de jornalismo na cobertura colaborativa. A cobertura colaborativa me obrigava a sair do comodismo, a ir até lugares novos, ver e ouvir coisas novas, conhecer pessoas... e por mais que os alunos neguem... existe um conformismo em fazer toda a reportagem sem sair de casa e pedir pra fonte enviar uma foto.

Claro que este não é o único lugar que é possível (re)encontrar isso e claro também que este não é o primeiro nem o último jeito de fazer... mas é um jeito e é o jeito que eu achei de me encontrar de novo.

E aprendi de tudo em todos os coletivos que passei (Bauru, São Carlos, Rio Preto, Piracicaba, São Paulo) – tanto processos de trabalho, como tarefas cotidianas e banais como furar uma parede, escolher limão ou cozinhar. Aprendi também que ficar na base é tão importante quanto gerir, a confiar mais nas pessoas e em mim, que tudo é possível de ser feito e conquistado com foco e dedicação desde que a gente acredite de verdade e que se a gente tá junto nessa, a gente tá junto pra valer.


Casa FdE Bauru
Casa FdE Sanca

Piracema, em Piracicaba

Timbre Coletivo, em São José do Rio Preto


Casa FdE São Paulo
A leitura que a gente dá pras coisas é que as fazem serem como são. Eu também dei porrada em ponta de faca nesses três anos, conflitei horrores muitas questões, já briguei (feio), me recusei a olhar, já me afastei mas nunca me fechei pra tentar sacar qual era e tentar uma nova história. Reaproximei, ressignifiquei e reconstrui.

E, sinceramente, acho que fui muito feliz nessa reconstrução. Até me emociona lembrar de alguns momentos que compartilhei nos coletivos por aí. O que eu ganhei (constatação clichê mas) não tem preço. Existe um antes e depois do Fora do Eixo, porque as experiências - as tais vivências - realmente são transformadoras e marcantes... saber que é possível um novo sonho, um novo mundo... ver acontecer te renova energias, te impulsiona para pulos maiores, para desafios novos, te ensina consciência coletiva, responsabilidade, e tantas coisas que às vezes a gente não nomeia e só percebe que aprendeu tempos depois.

E quem já passou por esse processo, sabe do que eu tô falando. Sabe não são só um apanhado de tags.

É impossível sair daqui sem ser outra pessoa. É impossível não vivenciar uma transformação cotidiana depois de ter se entregue à esse processo mesmo que numa dimensão como a minha, bem menor que a de vocês.

Conheci muita gente que vive o Fora do Eixo, gente que escolheu desenhar seus próprios caminhos e futuros em algo que realmente acreditam, gente muito interessante, muito inteligente, muito talentosa, com potencial pra deixar qualquer um de cara.



E eu tive muita sorte de ter esbarrado com vocês no meu caminho lá em 2010, Gabriel, Eduardo, Artur, Lucas... e tenho muito orgulho de saber que eu também faço parte, de certa maneira, dessa construção. É uma sensação que não consigo explicar.

O processo é foda. Um laboratório vivo, em que as experiências podem ser novas todos os dias… só depende da gente imaginar.

E o ponto de interrogação? Demorei muito a entender. Realmente não é um processo fácil, mas nunca vi ninguém negar explicação sobre nada, mesmo que fosse pela miléssima vez. Acho que sanei as dúvidas que tinha. Mas sei que o mundo e também o Fora do Eixo estão em constantes processos de transformação. Sei que outras interrogações surgirão, mas que a gente tem que tá aberto, ser mais receptivo com o que não nos é comum ou mesmo igual.


E os amigos mais próximos sabem que a paixão não morreu (definitivamente não, e até mesmo quem me vê andando por aí com as camisetas dos mais diferentes festivais da rede ou me olha do outro lado do computador com tantos adesivos que me entregam: Enxame Coletivo, Aeromoças, #PósTV, Ninja , sabem disso), sabem que esse “encerramento” da vivência é só um novo capítulo. Sair (se é que posso usar essa palavra) não nega nada disso tudo que vivi e considero parte de mim.

Mas existem muitos oceanos, céus, mundos dentro e fora de mim que quero e sinto necessidade em desbravar agora. (Eu ainda não sei para onde os ventos seguem, mas sinto que logo logo eles soprarão ditando as direções.) Obrigada por terem me acolhido em suas casas sempre tão bem e por terem sido tão pacientes e generosos comigo.

Pra mim, tudo isso significou muito, além dos processos também as pessoas que fizeram parte deles.

E obrigada a todos que eu tive o prazer de conhecer nessa jornada. Vocês me fizeram acreditar na existência desse novo mundo possível. Espero mesmo poder encontrá-los por muitas vezes ainda nesse mundão. Seguimos juntos.

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